O ranking do Google não prevê o que o ChatGPT cita. Em um estudo da Universidade de Toronto com 143.249 respostas, 97% das páginas que o ChatGPT recuperou não estavam entre as 50 primeiras do Google. A disputa pela citação começa na busca do próprio assistente, e é lá que a sua página precisa ser encontrada.
O que o estudo mediu?
Mahe Chen e Nick Koudas, da Universidade de Toronto, acompanharam 651 perguntas comerciais sobre um provedor de internet por fibra dos Estados Unidos. As perguntas foram feitas todos os dias entre 24 de junho e 21 de setembro de 2026, em três motores: ChatGPT (GPT-5.4 nano com busca na web), Gemini (3.1 Flash Lite com Google Search) e Perplexity (Sonar). Resultado: 143.249 respostas e 396.188 citações.
O desenho tem um truque que gostamos muito: cada página só é comparada com páginas do mesmo site. Isso tira do caminho a autoridade do domínio e deixa à vista o que muda de uma página para outra. Depois, os autores reenviaram as perguntas pela API 13 vezes, em 11 dias, para ver as buscas que o ChatGPT fez e a lista ranqueada que voltou. É raro ter essa janela.
Por que a recuperação pesa tanto?
Pense em um vestibular de duas fases. Na primeira, o assistente sai buscando e monta uma lista de candidatas. Na segunda, escolhe quais citar. Quem reprova na primeira nunca chega à segunda.
Os números do estudo desenham essa escada:
- Toda URL citada pelo ChatGPT estava entre as páginas que as buscas do próprio ChatGPT tinham devolvido.
- Ele cita 43,8% das páginas que ficaram em primeiro na sua lista e 3,5% das que ficaram entre a 11ª e a 20ª posição.
- A recuperação explica 32% da variação nas contagens de citação dentro de um mesmo site (intervalo de confiança de 24% a 42%).
Em português claro: antes de pensar em como a página convence, vale perguntar se ela chega a ser vista.
O Google ainda importa para a citação no ChatGPT?
Pelo que o estudo mediu, o ranking clássico é um mau substituto. A lista do ChatGPT quase não se sobrepõe à do Google nem à do Bing: 97% das páginas recuperadas ficaram fora do top 50 do Google e 99% fora do top 30 do Bing. Ou seja, estar bem posicionado na busca tradicional não é, sozinho, um indício confiável de que o ChatGPT vai buscar a sua página.
Atenção ao verbo. Isso é uma medição com perguntas em inglês, sobre um setor, via API. Não dizemos que SEO deixou de importar; dizemos que não dá para usar a posição no Google como termômetro da posição na busca do ChatGPT. Se quiser a base conceitual, o texto sobre grounding em IA mostra como respostas se apoiam em páginas reais.
O que, na página, parece contar?
Aqui o estudo é prudente, e nós também precisamos ser. Dentro de um mesmo site, duas propriedades passaram em todos os testes de robustez: a correspondência entre o título e a pergunta, e a correspondência entre o melhor parágrafo e a pergunta. Um desvio-padrão a mais na do melhor parágrafo vem junto com 15,5% mais citações; na do título, 14,1% mais.
Já FAQ, caixa de resumo, caixa de autor, marcação schema.org e velocidade apareciam como favoráveis quando se comparavam sites diferentes (por exemplo, +18,1% para blocos de FAQ e +7,5% para schema), mas nenhuma foi significativa dentro de um mesmo site. Isso não prova que sejam inúteis; mostra que, entre páginas parecidas, não foram o que as separou. Os recursos de página, no total, explicaram só 2,8% da variação dentro do site no ChatGPT.
Nossa leitura, que é opinião e não resultado do estudo: escreva o título e um parágrafo-chave com as palavras que o consumidor usaria para perguntar. Para ver como a IA recorta a página, leia chunking de passagens.
Quanto desse retrato é estável?
Pouco, e isso é parte da lição. Com dez semanas de distância, só 14% da variação dentro do site no ChatGPT era compartilhada (29% no Gemini e 0% no Perplexity). O conjunto de páginas citadas deriva.
O estudo também registra que 47% das citações do ChatGPT vieram de sites que o próprio modelo nomeia sem pesquisar, contra uma linha de base de 25%. Quando a marca já mora na memória do modelo, a busca confirma; quando não mora, a busca é a única porta. É o mesmo território do artigo sobre conhecimento paramétrico e recuperação.
Em experimentos controlados, a ordem das fontes também mexeu no resultado: a fonte mostrada primeiro foi citada 60% das vezes, contra 43% quando veio por último. Os autores usaram modelos menores e entradas construídas, então trate como indício. O efeito conversa com o que descrevemos em viés de posição.
Quais são os limites?
Os próprios autores listam: são associações, não causas; cerca de um terço das URLs citadas não pôde ser analisado; a reexecução via API pode não ser igual ao aplicativo de consumo; o Perplexity não pôde ser reexecutado; as perguntas são em inglês e focadas nos Estados Unidos. Não temos como transpor esses números para eletrônicos no Brasil. O que transpomos é o método: separar recuperação de citação e medir de novo, sempre.
Na Citoriq, o raciocínio é parecido. Nosso diagnóstico gratuito é uma análise experimental via API e não replica a interface de consumo do ChatGPT. Ele mostra como um modelo responde a perguntas de compra, com evidência da resposta, mas não promete posição e não equivale a ser recomendado. Os resultados variam por modelo, prompt e dia; veja a metodologia.
O que levar daqui
- A citação do ChatGPT nasce da lista que a busca dele monta, não da do Google: 97% das páginas recuperadas estavam fora do top 50 do Google.
- Ser encontrado vem antes de convencer. Meça as duas etapas separadamente.
- Título e melhor parágrafo alinhados à pergunta foram as propriedades de página mais consistentes; FAQ e schema não se destacaram dentro de um mesmo site.
- O conjunto citado muda em semanas. Uma foto única não serve; repita a medição.
Perguntas frequentes
O ChatGPT usa o ranking do Google para escolher páginas?
No estudo, não de forma que se perceba: 97% das páginas que ele recuperou estavam fora do top 50 do Google. O resultado vem de uma reexecução via API, em inglês, e pode não valer para o aplicativo ou para o português.
Então SEO tradicional deixou de importar?
O estudo não diz isso. Ele indica que a posição no Google não serve como indicador da posição na busca do ChatGPT. Outras superfícies, como o Google, seguem com sua própria lógica.
Schema e FAQ não funcionam?
Dentro de um mesmo site, nenhum dos dois foi significativo para a contagem de citações no estudo. Isso não os torna inúteis para outros fins, como regras de dados estruturados do Google; apenas não apareceram como diferencial de citação ali.
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